Essa história é baseada em fatos meio reais.
* * *
Tava ouvindo a Nina cantar, hoje. Ela falava sobre uma nova vida, sobre liberdade, sobre se sentir bem. E eu tava me sentindo bem com ela.
Daí apareceu o David Byrne. "Ei", falou. "Oi", eu disse. Não quis dar muito papo – ainda tava voando pra longe com a Nina e os passarinhos, e a lua tá cheia, e a noite, fria. "É só uma casa, não é um lar", ele falou mesmo assim.
"Ainda", eu pensei, bem mal-criada. Não disse nada pra não perder o amigo.
Daí bateu uma raivinha. "Que puto", pensei, e respondi "sim, mas vai ser."
– É só vidro, concreto e pedra. Pára de achar que isso vai resolver tua vida.
– Que nada.
– E por que não resolveu antes? –, ele perguntou.
– Porque era provisório. Maceió, Rio Preto, Jundiaí, Luanda, era tudo provisório.
– E São Paulo?
"Filho da puta. Vou te deletar do meu iPod, do meu iTunes, da minha vida", prometi com minhas entranhas.
– Sabe por quê São Paulo também não resolveu, nega? Porque teu problema não é esse.
– Ahã. E qual é o meu problema?
Ele deu uma risadinha.
– Eu que sei?
– Devia saber, tá se metendo na minha vida aí, todo expert.
David riu de novo, com mais gosto, dessa vez.
– Mai menino! Oa, pensa bem: tu tás aí nessa de procurar "tua identidade", né? Aliás, conversinha 30 anos da porra.
– E?
Eu já queria bater nele.
– Primeira coisa: acho que tu já sacou que tudo passa, tudo passará, ok?
– Hã.
– Então vai nessa pra Recife, na boa. Vai pra Grudes no Capibar, pinta tua sala de azul, vai cantar no Chalé, compra a porra da avenca que tu queres. Mas se liga que tu é daquele tipo de gente que tá sempre meio insatisfeito com tudo, sempre perguntando "e se".
– Massa. Me liguei. Agora te fode.
David riu. De novo.
– "Mimimi, fiquei braba!" Ô nega, não é tu que tás atrás da tua identidade?
– É, velho, e daí?
– Então se liga de verdade, porra! Aposto que em dois tempos tu vai desistir de Recife, mesmo com essa historinha new age da puta que o pariu de identidade. Então agradece a Deus e faz a mala, porra! Pára de fazer draminha. Se tá insatisfeita, é insatisfeita, não interessa. Interessa é ter culhões de ir atrás do que te satisfaz, do que te dá tesão. E ainda digo mais.
– Diga logo.
– "Mala na mão" tá nessa lista. Sem trocadalho.
– Sim, palhacinho da Estrela –, respondi.
De fato. Talvez o que mais tenha me inspirado na música da Nina tenha sido isso, essa parte do novo amanhecer, do novo dia – aquele lugar onde tudo pode acontecer, acabar, começar, recomeçar. E a sensação de ser livre pra poder escolher qualquer uma dessas coisas.
– Tá beleza, David, mas tu não acha que isso é meio cansativo, não? Tu não acha que faz parte da minha "tarefinha de casa" descobrir que ficar parada pode ser bom, também?
– Oi? –, perguntou o pessoal do Jumbo Elektro.
– 'Xá pra lá –, respondi.
"Freak cat" é o caralho.
2 comments:
"They never get tired of putting me down
And I'll never know when I come around
What I'm gonna find
Don't let them make up your mind.
Don't you know..."
gostei do diálogo. Eu já acho ser mais interessante inventar um David Byrne na minha cabeça e conversar com ele do que comigo mesmo.
;-D bjo, e bom Recife
ah, é muito mais fácil. dele eu posso ter toda a raiva do mundo, né? =)
beijo, e boa (?) lisboa
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